Quem quer ser professor?

30 de junho de 2011
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Baixos salA?rios, desvalorizaA�A?o e falta de plano de carreira afastam as novas geraA�A�es da profissA?o docente. Mas hA? quem nA?o desista. Por Tory Oliveira. Foto: Masao Goto Filho

Tory Oliveira

VocA? A� louca!a�? a�?A� tA?o inteligente, sempre gostou de estudar, por que desperdiA�ar tudo com essa carreira?a�? Ligia Reis (foto a dir.), de 23 anos, ouviu essas e outras exclamaA�A�es quando decidiu prestar vestibular para Letras, alimentada pela ideia de se tornar professora na EducaA�A?o BA?sica. Nas conversas com colegas mais velhos de estA?gio, no curso de HistA?ria, IsaA�as de Carvalho, de 29 anos, tambA�m era recebido com comentA?rios jocosos. a�?Vai ser professor? Que coragem!a�? Estudante de um colA�gio de classe mA�dia alta em SA?o Paulo, Ana Sordi (foto a esq.), de 18 anos, foi a A?nica estudante de seu ano a prestar vestibular para Pedagogia. E tambA�m ouviu: a�?VocA? vai ser pobre, nA?o vai ter dinheiroa�?. Apesar das crA�ticas, conselhos e reclamaA�A�es, Ligia, IsaA�as e Ana nA?o desistiram. No quinto ano de Letras na USP, Ligia hoje trabalha como professora substituta em uma escola pA?blica de SA?o Paulo. Formado em HistA?ria pela Unesp e no quarto ano de Pedagogia, IsaA�as A� professor na rede estadual na cidade de SA?o Paulo. No segundo ano de Pedagogia na USP, Ana acompanha duas vezes por semana os alunos do segundo ano na Escola Viva.

Quando os trA?s falam da profissA?o, A� com entusiasmo. Pelo que indicam as estatA�sticas, Ligia, IsaA�as e Ana fazem parte de uma minoria. Historicamente pressionados por salA?rios baixos, condiA�A�es adversas de trabalho e sem um plano de carreira efetivo, cursos de Pedagogia e Licenciatura a�� como PortuguA?s ou MatemA?tica a�� sA?o cada vez menos procurados por jovens recA�m-saA�dos do Ensino MA�dio. Em sete anos, nos cursos de formaA�A?o em EducaA�A?o BA?sica, o nA?smero de matriculados caiu 58%, ao passar de 101.276 para 42.441.

Atrair novas geraA�A�es para a carreira de professor estA? se firmando como um cialis commercial actress. dos maiores desafios a ser enfrentado pela EducaA�A?o no Brasil. NA?o por acaso, a valorizaA�A?o do educador A� uma das principais metas do novo Plano Nacional de EducaA�A?o. Uma olhadela na histA?ria da educaA�A?o mostra que nA?o A� de hoje que a figura do professor A� institucionalmente desvalorizada. a�?HA? textos de governadores de provA�ncia do sA�culo XIX que jA? falavam que ia ser professor aquele que nA?o sabia ser outra coisaa�?, explica Bernardete Gatti, da FundaA�A?o Carlos Chagas, coordenadora da pesquisa Professores do Brasil: Impasses e desafios. No entanto, entre as dA�cadas de 1930 e 1950, a figura do professor passou a ter um valor social maior. Tal perspectiva, porA�m, modificou-se novamente a partir da expansA?o do sistema de ensino no Brasil, que deixou de atender apenas a elite e passou a buscar uma universalizaA�A?o da educaA�A?o. Desordenada, a expansA?o acabou aligeirando a formaA�A?o do professor, recrutando muitos docentes leigos e achatando brutalmente os salA?rios da categoria como um todo.

Raio X
Encomendada pela Unesco, a pesquisa Professores do Brasil: Impasses e desafios revelou que, em geral, o jovem que procura a carreira de professor hoje no Brasil A� oriundo das classes mais baixas e fez sua formaA�A?o na escolas pA?blicas. Segundo dados do questionA?rio socioeconA?mico do Enade de 2005, 68,4% dos estudantes de Pedagogia e de Licenciatura cursaram todo o Ensino MA�dio no setor pA?blico. a�?De um lado, vocA? tem uma -implicaA�A?o muito boa. SA?o jovens que estA?o procurando ascensA?o social num projeto de vida e numa profissA?o que exige uma formaA�A?o superior. EntA?o, eles vA?m com uma motivaA�A?o muito grande.a�?

A� o caso de Fernando Cardoso, de 26 anos. Professor auxiliar do quinto ano do Ensino Fundamental da Escola Viva, Fernando A� a primeira pessoa de sua famA�lia a completar o Ensino Superior. Sua primeira graduaA�A?o, em EducaA�A?o FA�sica, foi bastante comemorada pela famA�lia de Mogi-GuaA�u, interior de SA?o Paulo. O mesmo aconteceu quando ele resolveu cursar a segunda faculdade, de Pedagogia.

Entretanto, pondera Bernardete, grande parte desse contingente tambA�m chega ao Ensino Superior com certa a�?defasagema�? em sua formaA�A?o. A pesquisadora cita os exemplos do Exame Nacional do Ensino MA�dio (Enem), que revela resultados muito baixos, especialmente no que diz respeito ao domA�nio de LA�ngua Portuguesa. a�?EntA?o, estamos recebendo nas licenciaturas candidatos que podem ter dificuldades de linguagem e compreensA?o de leitura.a�?

Segundo Bernardete, esse A� um efeito duradouro, uma vez que a universidade, de forma geral, nA?o consegue suprir essas deficiA?ncias. Para IsaA�as Carvalho, esta A� uma visA?o elitista. a�?Muitos professores capacitados ingressam nas escolas e estA?o mudando essa realidade. Esse discurso acaba jogando toda a culpa nos professoresa�?, reclama.

Desde 2006, IsaA�as Carvalho trabalha como professor do Ensino Fundamental II e Ensino MA�dio em uma escola estadual em SA?o Paulo. Oriundo de formaA�A?o em escolas pA?blicas, IsaA�as tambA�m A� formado pelo Senai e chegou a trabalhar como tA�cnico em refrigeraA�A?o. SA? conseguiu passar pelo a�?gargalo do vestibulara�? por causa do esforA�o de alguns professores da escola em que estudava na Vila Prudente, zona leste de SA?o Paulo. Voluntariamente, os professores davam aulas de reforA�o prA�-vestibular de graA�a para os alunos, nos fins de semana. a�?Os alunos se organizavam para comprar as apostilasa�?, lembra. Foi durante uma participaA�A?o como assistente de um professor na escola de japonA?s em que estudava que AntA?nio Marcos Bueno, de 21 anos, resolveu tornar-se professor. a�?Um sentimento A?nico me tocoua�?, exclama. Em busca do objetivo, saiu de Manaus, onde morava, e mudou-se para SA?o Paulo. Depois de quase dois anos de cursinho prA�-vestibular, AntA?nio Marcos estA? prestes a se mudar para a cidade de Assis, no interior do Estado, onde vai cursar Letras, com habilitaA�A?o em japonA?s.

Entretanto, essa visA?o enraizada na cultura brasileira de que ser professor A� uma missA?o ou vocaA�A?o a�� e nA?o uma profissA?o a�� acaba contribuindo para a desvalorizaA�A?o do profissional. a�?Socialmente, a representaA�A?o do professor nA?o A� a de um profissional. A� a de um cuidador, quase um sacerdote, que faz seu trabalho por amor. Claro que todo mundo tem de ter amor, mas A� preciso aliar isso a uma competA?ncia especA�fica para a funA�A?o, ou seja, uma profissionalizaA�A?oa�?, resume Bernardete.

Contra a corrente
Ainda assim, o idealismo e a vontade de mudar o mundo ainda permanecem como fortes componentes na hora de optar pelo magistA�rio. Anderson Mizael, de 32 anos, teve uma trajetA?ria diferente da maioria dos seus colegas da PUC-SP. Criado na periferia de SA?o Paulo, Anderson sempre estudou em escolas pA?blicas. Adulto, trabalhou durante cinco anos como designer grA?fico antes de resolver voltar a estudar. Bolsista do ProUni, que ajuda a financiar a mensalidade, Anderson A� um dos poucos do curso de Letras que almejam a posiA�A?o de professor de Literatura. a�?Eu tenho esse lado social da profissA?o. O ensino pA?blico estA? precisando de bons professores, de gente novaa�?, explica ele, que acaba de conseguir o primeiro estA?gio em sala de aula, em uma escola no Campo Limpo, zona sul da capital. Ana, que hoje trabalha em uma escola de elite, sonha em dar aula na rede pA?blica. a�?SA?o os que mais precisam.a�? a�?Eu sempre quis ser professora, desde crianA�aa�?, arremata Ligia.

A empolgaA�A?o A� atenuada pela realidade da escola a�� com as jA? conhecidas salas lotadas, falta de material e muita burocracia. Ligia Reis reclama. a�?Cheguei, ganhei um apagador e sA?. NA?o existe nenhum roteiro, nenhum amparoa�?, conta. a�?A�s vezes, vocA? A� um A?timo professor, tem vA?rias ideias, mas a escola nA?o ajuda em nadaa�?, desabafa. Ligia tambA�m conta que, para grande parte de seus colegas de graduaA�A?o, dar aula A� a A?ltima opA�A?o. a�?A maioria quer ser tradutor ou trabalhar em editoras. A� um quadro muito triste.a�?

Como constatou Ligia, de forma geral, jovens oriundos de classes mais favorecidas, teoricamente com uma formaA�A?o mais sA?lida e maior bagagem cultural, acabam procurando outros mercados na hora de escolher uma profissA?o. a�?Eles procuram carreiras que oferecem perspectivas de progresso mais visA�veis, mais palpA?veisa�?, explica Bernardete. Um dos motivos que os jovens dizem ter para nA?o escolher a profissA?o de professor A� que eles nA?o veem estA�mulo no magistA�rio e os salA?rios sA?o muito baixos, em relaA�A?o a outras carreiras possA�veis. a�?Meu avA? disse para eu prestar FarmA?cia, que estava na modaa�?, lembra Ana.

A busca pela valorizaA�A?o da carreira de professor passa tambA�m, mas nA?o somente, por polA�ticas de aumento salarial. AlA�m de pagar mais, A� preciso que o magistA�rio tenha uma formaA�A?o mais sA?lida e, principalmente, um plano de carreira efetivo. a�?Um plano em que o professor sinta que pode progredir salarialmente, a partir de alguns quesitos. Mas que ele, com essa dedicaA�A?o, possa vir a ter uma recompensa salarial fortea�?, conclui a pesquisadora.

Anderson, Ligia, Ana, IsaA�as, AntA?nio e Fernando torcem para que essa perspectiva se torne realidade. a�?Eu acho que, felizmente, as pessoas estA?o comeA�ando a tomar consciA?ncia do papel do professor. A� uma profissA?o que, no futuro, vai ser valorizadaa�?, torce Anderson. a�?A� uma profissA?o, pessoalmente, muito gratificante.a�? a�?A�s vezes, eu chego A� escola morta de cansaA�o, mas lA? esqueA�o tudo. A� muito gostosoa�?, conta Ana.

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