Alvos do HIV

18 de agosto de 2011
Em "Artigos"

Trinta anos apA?s a descoberta do vA�rus, os jovens sA?o o grupo com maior tendA?ncia de crescimento da Aids

Mas tem tratamento!a�? NA?o A� incomum ouvir a fraseA� ao falar a adolescentes sobre Aids no trabalho de prevenA�A?o. GraA�as aos avanA�os, A�s pesquisas e A� descoberta dos medicamentos em 1992, convivemos com o HIV hA? trA?s dA�cadas. MudanA�as de conceito e na transmissA?o de informaA�A?o sA?o pontos marcantes nesses 30 anos. Mas cabe ao educador questionar: o que nA?o A� dito a esses jovens?

Se a primeira dA�cada foi marcada por terrorismo e medo, jA? que se desconhecia o agente causador da doenA�a, hoje presenciamos o aumento da qualidade da informaA�A?o, constatada pelas pesquisas de conhecimento, atitudes e prA?ticas realizadas pelo Programa Nacional de DST/Aids no Brasil. GraA�as aos avanA�os desde 1992, com a descoberta dos medicamentos antirretrovirais (que impedem a multiplicaA�A?o do vA�rus no organismo), o acesso universal ao coquetel reposicionou a Aids como uma doenA�a crA?nica com tratamento possA�vel, rigoroso e delicado. NA?o se trata mais de uma sentenA�a de morte. Ou seja, esta geraA�A?o de adolescentes veio ao mundo quando o enfrentamento da epidemia tinha novas perspectivas e teve amplo acesso A� informaA�A?o, por meio de campanhas de mA�dia, articulaA�A�es em saA?de e educaA�A?o.

Por outro lado, o MinistA�rio da SaA?de dA? conta de que, em cinco anos, a prevalA?ncia do vA�rus HIV em meninosA� entre 17 e 20 anos subiu de 0,09% para 0,12% a�� o porcentual sobe quanto menor for a escolaridade. De 1980 atA� junho de 2010, 11,3% dos casos no PaA�s foram de jovens na faixa dos 13 aos 24 anos. NA?o sA?: a maior proporA�A?o de ocorrA?ncias estA? relacionada A� expoxiA�A?o sexual. Diante desse quadro, como os jovens lidam com o sexo seguro e com a Aids?

O que os jovens sabem

Em levantamento recente realizado pelo Centro de Estudos da Sexualidade Humana do Instituto Kaplan, 97% dos 1.149 adolescentes demonstraram ter informaA�A�es sobre a Aids, o que nA?o impediu que, na hora de tomar decisA�es diante de situaA�A�es hipotA�ticas, 37% dessem respostas que indicassem uma conduta de vulnerabilidadeA�(explica-se o conceito a seguir).A� Ademais, a Pesquisa de Comportamento, Atitudes e PrA?ticas da PopulaA�A?o Brasileira (PCAP 2008) constatou que 97% dos brasileiros entre os 15 e os 24 anos sabem que o preservativo A� o mA�todo mais efetivo no combate A� transmissA?o do vA�rus, mas seu uso tende a cair quanto mais estA?vel for o relacionamento sexual.

A� notA?vel que apenas a informaA�A?o nA?o A� suficiente para que os jovens utilizem o preservativo. TambA�m A� preciso motivA?-los a lanA�ar mA?o desses conhecimentos e enfrentar situaA�A�es de risco. A� nesse aspecto que a influA?ncia do educador pode fazerA� a diferenA�a. Na mesma sondagem do Instituto Kaplan, a escola foi destacada por 84% dos entrevistados como o principal espaA�o para a busca de conhecimento sobre DST/Aids, o que mostra que o professor tem papel essencial na educaA�A?o sexual.

O que fazer diante de uma oportunidade dessas? Os programas de educaA�A?o pregam aliar informaA�A?o a valores, atitudes e condutas que fortaleA�am a prevenA�A?o e diminuam a vulnerabilidade. Para ficar em um exemplo baseado em pesquisas: percebe-se que, diante da afirmaA�A?o a�?Mas Aids- tem tratamento!a�?, nem sempre o professor- esclarece o que vem com o pacote a�?tratamentoa�?, polemiza,A� discute como seria o momento posterior a ele ou ressalta o mais grave: que a ainda nA?o hA? cura. Esse A� um tA�pico momento para retirar do prA?prio adolescente o fragmento de conhecimento que ele apresentar e construir em conjunto uma informaA�A?o que dA? subsA�dios, de maneira clara e direta, para o entendimento dos reais impactos de uma doenA�a como a Aids ou da convivA?ncia com o HIV.

Vulnerabilidade juvenil

O conceito de vulnerabilidade identifica os fatores que influenciam a nA?o prevenA�A?o nas relaA�A�es sexuais. QuestA�es como a dificuldade de negociar o uso do preservativo, a vergonha, o medo de falhar, o desconhecimento, a diminuiA�A?o da autoestima, a ausA?ncia de cuidado consigo e o envolvimento emocional fazem parte do -repertA?rio de fatores que podem agir na contramA?o do uso do preservativo.

Muito se discute a respeito da vulnerabilidade dos alunos de Ensino MA�dio em relaA�A?o A� gravidez na adolescA?ncia e A� infecA�A?o pelo HIV.A� No Brasil, 20,42% dos partos sA?o de adolescentes, de acordo com o MinistA�rio da SaA?de. Em relaA�A?o ao contA?gio pelo vA�rus, segundo dados de 2009, a porcentagem de jovens do sexo masculino infectada salta de 2,4%, na faixa dos 14 a 19 anos, para 18,1%, entre os que tA?m de 20 a 24 anos. Entre as garotas, os nA?meros vA?o de 3,1% para 13,4%, na comparaA�A?o entre as faixas etA?rias de 13 a 19 e de 20 a 24 anos.

Especialmente a vulnerabilidade das garotas A� Aids preocupa e faz parte das aA�A�es de enfrentamento da epidemia no Brasil. No mais recenteA�Boletim Nacional de DST/Aids, elas foram destacadas como o pA?blico que teve crescimento no nA?mero de casos em relaA�A?o A�s demais populaA�A�es, que tem apresentado decrA�scimo. Segundo o relatA?rio, a inversA?o se deu a partir de 1998 e A� esta a A?nica faixa etA?ria em que hA? mais ocorrA?ncias entre mulheres do que em homens: oito casos em meninos para cada dez em meninas.A� Em ambos os sexos, dos 13 aos 24 anos, a contaminaA�A?o estA? atribuA�da A� categoria de exposiA�A?o sexual, sendo 74% no sexo masculino e 94% no sexo feminino. A�rgA?os como Unaids- e Unesco reconhecem que o adolescente se encontra em posiA�A?o vulnerA?vel e que A� necessA?rio a implantaA�A?o nas escolas de programas de educaA�A?o sexual que favoreA�am o acesso integral a informaA�A�es.

EducaA�A?o sexual

Cerca de 30,5% dos alunos de 9oA�ano jA? tiveram relaA�A�es sexuais segundo a Pesquisa Nacional de SaA?de do escolar (2009) e estima-se que, ao fim do Ensino MA�dio, de 70% a 80% exercite sua vida sexual. O repertA?rio sexual dos adolescentes A� amplo atualmente. Eles se permitem investigar e -descobrir formas de contato A�ntimo para lidar com interdiA�A�es como a virgindade, e, assim, se relacionam de outras muitas maneiras que podem tornA?-los vulnerA?veis.

Um exemplo A� o sexo oral e a crenA�a de que nA?o expA�e a DST. O nA?mero de dA?vidas sobre a prA?tica cresceu nos A?ltimos anos, assim como os casos de HPV e herpes, mas as aulas de orientaA�A?o sexual a respeito das DST nA?o acompanharam essa evoluA�A?o, e continuam mostrando imagens horrorosas de estA?gios avanA�ados de doenA�as. Na nova perspectiva de formaA�A?o de competA?ncias para a vida nA?o podemos segregar a educaA�A?o sobre HIV/Aids, um aprendizado que envolve a participaA�A?o juvenil, o pensamento crA�tico e cialis where can i buy it. a experiA?ncia.

Isso posto, A� preciso buscar metodologias para inserir a educaA�A?o sexual, de maneira lA?dica e dirigida, atendendo A�s perspectivas do aluno e fornecendo ferramentas para que ele associe o uso do preservativo ao exercA�cio do prazer. A escola deve estar preparada para uma abordagem integral da sexualidade. Apesar de citada inclusive em guias e diretrizes como os PCN, ainda A� difA�cil expandir na prA?tica a intervenA�A?o para alA�m das exposiA�A�es chatA�ssimas sobre A?rgA?os reprodutores. Percebe-se, em oficinas que envolvem prA?ticas sexuais, que o prazer e o reconhecimento da vulnerabilidade no cotidiano atraem maior interesse e tA?m mais impacto nos grupos do Ensino MA�dio.

Deve-se, entA?o, trabalhar trA?s pilares:A�conhecimento, atitudes e competA?ncias, auxiliando a tomada de decisA?o diante das condutas de prevenA�A?o. A� uma tarefa que soa complicada, ainda mais se lembrarmos que, na histA?ria da sexualidade, jA? tivemos tantas associaA�A�es com a reproduA�A?o e que as prA?ticas sexuais sempre foram deixadas de lado, como se nA?o se pudesse abordar a intimidade e as dificuldades que envolvem a vida sexual. HA? alguns anos, com o reconhecimento dos 11 direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos a�� destacando o direito ao prazer a�� comeA�amos a entender que a estratA�gia funciona bem como motivadora.

Os adolescentes estA?o expostos a muitas informaA�A�es parciais, por vezes tendenciosas ou contestA?veis, e o acesso a uma educaA�A?o sexual clara e baseada nos direitos humanos A� fundamental na luta contra o preconceito e para assegurar ao jovem seu papel de sujeito de escolha a�� esse A� o lugar do educador. Trabalhar o cotidiano das prA?ticas sexuais facilita o reconhecimento das situaA�A�es de vulnerabilidade e promove troca de conhecimento, podendo ampliar o nA?mero de respostas de enfrentamento e novas condutas a�� como o uso do preservativo em todas as relaA�A�es.

Muitos educadores tA?m dA?vidas sobre dizer ou nA?o ao jovem que o HIV/Aids encontra-se hoje na classe de doenA�as crA?nicas porque temem autorizar, assim, a disseminaA�A?o do vA�rus e a ausA?ncia do cuidado. A omissA?o relega ao adolescente o antigo papel de a�?irresponsA?vela�?, no qual ele nA?o teria recursos para decidir sozinho. Quanto mais saudA?vel e responsA?vel for o exercA�cio da sexualidade, mais estaremos evoluindo em qualidade de vida da populaA�A?o e em cidadania. O fortalecimento do adolescente como sujeito de direito A� saA?de e A� educaA�A?o integral, entendendo que sexo e prazer sA?o constitutivos positivos desse processo, auxilia a motivaA�A?o para a prevenA�A?o.

Camila Guastaferro A� psicA?loga e educadora sexual, coordenadora de desenvolvimento institucional do Centro de Estudos da Sexualidade Humana a�� Instituto Kaplan.

Arquivos anexos para download: