LA�ngua, que bicho A� esse?

30 de junho de 2011

Segundo SA�rio Possenti, o linguista buscarA? regras para cada caso. Foto: JoA?o Zinclar

LA�via Perozim

Pesquisador da Unicamp SA�rio Possenti explica as diferenA�as entre variaA�A?o linguA�stica e gramA?tica que geram tantas polA?micas

Mais uma vez um livro didA?tico causa polA?mica. Em maio, a mA�dia reverberou, acriticamente, que o MinistA�rio da EducaA�A?o orientava os alunos a�?a falar erradoa�? (detalhes do imbrA?glioA�aqui). A confusA?o nA?o A� recente: linguistas e normatistas tA?m querelas antigas. Quem estA? certo? Como fica o ensino da lA�ngua portuguesa diante do fato de que uns consideram errado o que outros consideram correto? Nesta entrevista, feita por e-mail, o professor do departamento de linguA�stica da Unicamp esclarece algumas dA?vidas sobre as diferenA�as entre a variaA�A?o linguA�stica e a gramA?tica, explica como as lA�nguas se organizam e provoca: a�?O que consolida o desconhecimento da norma culta A� continuar fazendo o que se faz, considerar a�?erradosa�� os que sA? falam diferente, ensinar uma gramA?tica precA?riaa�?.

Carta Fundamental: Em maio, a mA�dia condenou o livro Por Uma Vida Melhor, seus autores e o prA?prio ministA�rio por admitirem o a�?portuguA?s erradoa�?, sob o pretexto de alertar para o a�?preconceito linguA�sticoa�?. No seu entendimento, tal conclusA?o A� correta?

SA�rio Possenti: O preconceito linguA�stico consistiria em discriminar alguA�m pelo fato de falar de maneira diferente. Pode acontecer em situaA�A�es diversas. Por exemplo, nA?o contratar um trabalhador pelo fato de ele ter um sotaqueA�marcado a�� do interior paulista ou baiano, por exemplo a�� ou porque nA?o usa variantes sintA?ticas cultas, mas apenas as populares (empregar concordA?ncias verbais ou nominais como a�?eles foia�? ou a�?10 reala�?). Sendo bem conservador, diria que, em certos casos, uma decisA?o como essa seria mais compreensA�vel do que em outros. Acho o fim do mundo que um contador ou um trabalhador braA�al seja dispensado por tais critA�rios, mas compreenderia que uma empresa regional preferisse a�?relaA�A�es-pA?blicasa�? que se caracterizassem como a�?do lugara�?. A questA?o pode ser diferente tambA�m na escola. NA?o se pode exigir nos primeiros anos de falantes oriundos de grupos populares que dominem formas de falar com as quais tA?m pouquA�ssimo contato e, principalmente, que dominem a escrita-padrA?o. Mas, se a escola for competente e os alunos tiverem interesse, deve-se exigir progressivamente o domA�nio do padrA?o. Uma pessoa pode ser vA�tima de preconceito tambA�m por razA�es a�?teA?ricasa�?.A� Por exemplo, ser considerada incapaz de pensar a�?direitoa�? pelo fato de seguir outra gramA?tica. Se isso fosse verdade, as pessoas sA? poderiam pensar em uma lA�nguaa�� Em resumo, o preconceito pode, sim, vitimar falantes a�?diferentesa�?. E os vitima todos os diasa��

CF: O que propA�em os linguistas quando afirmam que nA?o existe o a�?portuguA?s mais certo ou mais erradoa�??

SP: Os linguistas separam uma avaliaA�A?o de fatos linguA�sticos considerando apenas as regras que regem qualquer variedade de qualquer lA�ngua e uma avaliaA�A?o que a a�?sociedadea�? faz de cada uma dessas variedades. O exemplo do livro debatido A� bom: considerando apenas os fatos, o que se ouve, verifica-se que formas comoA�os livro e 10 real seguem uma regra, isto A�, sA?o construA�A�es regulares: esta gramA?tica marca com o a�?sa�? de plural apenas o primeiro elemento- (se -forem trA?s ou quatro, isso dependerA? de quais eles sA?o:A�os meus livro A� bem mais provA?vel do queA�os meu livro; masA�meus livro verde A� previsA�vel). O linguista tambA�m sabe que hA? outra gramA?tica do portuguA?s, que segue outra regra: marca com a�?sa�? todos os elementos da sequA?ncia:A�os livros, os meus livros, meus livros verdes. Para um linguista, o conceito de certo e errado nA?o tem sentido (seria como um botA?nico achar que uma planta estA? errada). Para ele, a questA?o A� quais sA?o as regras em cada caso. E ele pode comparar esses dados com os de outras lA�nguas. VerificarA?, por exemplo, que o inglA?s segue uma regra diferente, marcando apenas o nome, nA?o importa o lugar dele na sequA?ncia:A�the books ouA�the green and blue books (cuja a�?traduA�A?oa�? literal seriaA�os verde e azul livros). Em nenhuma variedade do portuguA?s se dizA�o ovos ouA�o livros. Mas o linguista tambA�m sabe que a sociedade em que se fala esta lA�ngua faz uma avaliaA�A?o das diferentes formas. Considera algumas delas erradas (e atA� feias) e outras corretas. Ele tentarA? compreender a que se deve essa avaliaA�A?o. Quase sempre hA? uma explicaA�A?o ligada aos grupos sociais (capital, cidade importante culturalmente, sede da corte etc.) ou aos campos em que se fala ou escreve. A literatura aceita mais variedades do que a ciA?ncia. Os jornais aceitarA?o mais ou menos variedades, conforme se pretendam mais ou menos populares. As noA�A�es de certo e errado tA?m origem na sociedade, nA?o na estrutura da lA�ngua.A�A� certo o que uma comunidade considera certo. E essa avaliaA�A?o muda historicamente.

CF: A� papel da escola ensinar as diferenA�as do discurso oral e do escrito?

SP: A� papel da escola, em algum momento, chamar a atenA�A?o para o fato de que hA? diferenA�as entre as diversas formas de falar e o que elasA�significam: pessoas urbanas nA?o falam como as rurais, jovens nA?o falam como idosos, mulheres nA?o falam como homens. Um modo de apresentar-se como jovem A� falar como um jovem. Outro, vestir-se como tal.A� Mas a escola nA?o precisa ensinar algumas das formas de falar, porque as pessoas as aprendem ao natural. O que a escola precisa ensinar A� fundamentalmente a escrita. O que ela faz pouco, a meu ver. Ensina-se de verdade a gramA?tica da lA�ngua culta lendo e escrevendo, a�?corrigindoa�?. O livro que estA? na berlinda fala emA�adequaA�A?o: escrever tem muito a ver com adequar a linguagem a cada tipo de texto. Num trabalho de biologia, nA?o sA? se usa um lA�xico do campo, como o texto se estrutura de forma especA�fica, que A� diferente da de uma narraA�A?o, de um convite, de uma propaganda. O padrA?o A� uma exigA?ncia da sociedade, em muitos casos, e a escola deve incluir prA?ticas que levam o aluno a escrever como se espera em cada campo. Mas, para fazer isso, nA?o A� necessA?rio tachar outras maneiras de falar de erradas ou de feias. AliA?s, esse comportamento, mais do que revelar preconceito, revela ignorA?ncia do que seja uma lA�ngua.

CF: A maioria das pessoas entende a lA�ngua como a que a escola ensina ou a dos manuais do tipo a�?nA?o erre maisa�?, que considera as variantes como erros. No caso da lA�ngua portuguesa, esse conceito se sustenta diante das mudanA�as pelas quais ela jA? passou?

SP: Manuais do tipo a�?nA?o erre maisa�? sA?o A?teis, especialmente se os que vA?o escrever tA?m as dA?vidas corretas. O problema A� que, para ter dA?vidas, uma pessoa, precisa desenvolver uma intuiA�A?o um pouco refinada, conhecer um pouco do assunto (eu nA?o tenho nenhuma dA?vida sobre energia nuclear e cA�lulas pluripotentes; nem sobre tucanos, na verdade). Assim, esses manuais nA?o podem ser os substitutos das gramA?ticas ou dos ensaios que relatam pesquisas. Seria como alguA�m achar que sabe botA?nica porque tem rA?cula e cebolinha na horta. Conhecer sA? esses manuais leva os a�?defensoresa�? da lA�ngua que chamam de culta a cometerem os mesmos a�?errosa�? que estA?o criticando. Alexandre Garcia comeA�ou cialis soft tabs mastercard. um comentA?rio quase irado sobre o livro em questA?o assim: a�?quando eu TAVA na escolaa��a�?. Ou seja, ele abonou o livro que estava criticando. SA? que, provavelmente, ele acha que falou a�?estavaa�?.

CF: Quais sA?o hoje os principais pontos de discordA?ncia em relaA�A?o ao registro e A� forma de a escola tratar essas duas lA�nguas?

SP: Acho que hA? alguma confusA?o, que nA?o precisaria existir. Bastaria que se aceitasse que as lA�nguas nA?o sA?o uniformes, o que A� um fato notA?rio. Bastaria A�s pessoas se ouvirem. Em seguida, que se aceitasse que as diversas formas de falar nA?o sA?o erradas, sA?o apenas diferentes, como se fossem outras lA�nguas. Depois, A� preciso decidir o que fazer com esses fatos. HA? duas coisas que parecem A?bvias. Se quisermos uma escola mais bem-sucedida, nA?o A� necessA?rio ensinar as formas populares orais aos alunos. Eles jA? as conhecem. Diante dessas variedades, a gente deveria aprender a se maravilhar, o que aconteceria se soubA�ssemos analisA?-las, como se aprende a analisar plantas ou animais. Deve-se ensinar a -escrita-padrA?o da A?nica forma que funciona: conseguir que o aluno produza um texto e, a partir dele, por mais precA?rio que seja ou pareA�a, reescrever atA� que ele fique adequado, correto e, se possA�vel, elegante.

CF: Ao propor que ensinar que o modo como aprendizes e professores falam nA?o A� feio ou errado consolida-se o desconhecimento da norma culta?

SP: O que consolida o desconhecimento da norma culta A� continuar fazendo o que se faz: considerar a�?erradosa�? os que sA? falam diferente, ensinar uma gramA?tica precA?ria.A� E fazer exercA�cios que nA?o fazem sentido. O que ensina A� ler e escrever analisando o que se lA? e se escreve. A� fA?cil. E A� barato.

CF: Afinal, deve-se ou nA?o ensinar gramA?tica na escola?

SP: Depende de como se ensina. Ensinar sA? faz sentido para conhecer que tipo de a�?bichosa�? sA?o as lA�nguas, como elas se organizam de fato, e nA?o como deveriam se organizar; isso A� etiqueta. Em cada ano se poderia eleger um (ou alguns) tipo de estrutura e dar atenA�A?o privilegiada a ela. Os alunos deveriam aprender a coletar dados, classificar, encontrar regularidades. Pode-se estudar a gramA?tica da fala da regiA?o em que a escola estA?. Os professores poderiam ser linguistas curiosos: levar em conta como se fala na regiA?o em que sA?o professores a�� atA� para saber o que a�?faltaa�? ensinar. Se A� para ensinar gramA?tica apenas para que a conclusA?o dos alunos seja que eles nA?o sabem portuguA?s, confundindo, aliA?s, lA�ngua e gramA?tica, seria melhor nem incluir no currA�culo.

Fonte: Carta Capital (Carta Fundamental)

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