29 de agosto de 2011

Em entrevista, Mauricio de Sousa conta como adaptou a Turma da MA?nica A�s novas formas de comunicaA�A?o e diz que Calvin e Haroldo sA?o personagens que queria ter criado. Foto: DivulgaA�A?o MSP

JA? faz mais de 50 anos que o entA?o repA?rter policial daA�Folha da ManhA?resolveu trocar a vida de jornalista pela produA�A?o de histA?rias em quadrinhos, sua grande paixA?o desde crianA�a. Poucos casos deram tA?o certo. Hoje, aos 75 anos, Mauricio de Sousa A� o grande expoente desse ramo no Brasil. Os personagens de sua grande criaA�A?o, a Turma da MA?nica, fazem parte do cotidiano a�� e da lembranA�a a�� de crianA�as, adolescentes e adultos.

Em maio, Mauricio tornou-se o primeiro quadrinista a ser empossado pela Academia Paulista de Letras. O prA?mio chega no momento em que o autor passa por um processo de adaptaA�A?o de seus personagens ao mundo atual das HQs, com a versA?o adolescente daA�Turma da MA?nica. a�?A infA?ncia mudou muito, estA? bem mais precoce. EntA?o temos de sofisticar a comunicaA�A?o junto a esse pA?blicoa�?, afirma. A Turma da MA?nica jovem, que jA? ultrapassou 30 ediA�A�es, A� sucesso de venda e tem uma novidade: MA?nica e Cebolinha assumem um namoro, depois de um tA?o esperado beijo. a�?As pessoas pedem mais, mas vai parar por aA�, porque a MA?nica A� minha filhaa�?, diz, rindo. Mas adianta: a�?Vai seguir, claro, o que acontece naturalmente com os jovens, mas vai demorara�?.

Nesta entrevista, por telefone, Mauricio de Sousa conta como viu as mudanA�as da infA?ncia e adolescA?ncia que aconteceram nas A?ltimas dA�cadas e como foi adaptando sua linguagem. Ele sugere tambA�m algumas formas de ler quadrinhos na escola e revela, com bom humor, uma de suas aspiraA�A�es: a�?Calvin e Haroldo A� a histA?ria que eu gostaria de ter criadoa�?.

Carta Fundamental: O que mudou entre o leitor de Turma da MA?nica hA? 40 anos e o de hoje?

Mauricio de Sousa: Bem, a crianA�a estA? mais apressada em virar adolescente. Antigamente, atingia-se essa fase aos 14-15 anos. Hoje se A� prA�-adolescente com 8 anos e adolescente aos 10. Consequentemente, vocA? tem de encarar que nA?o podemos mais falar com garotos de 10 anos da maneira como falA?vamos. A� como se fosse um pequeno adulto. NA?o dA? mais para usar uma linguagem que remeta a castelinhos de fadas e princesinhas. Mostramos agora a realidade da vida numa formataA�A?o suavizada. E tambA�m sofisticaram-se as formas de comunicaA�A?o, ela chega mais fA?cil. EntA?o temos de sofisticar a informaA�A?o e simplificar a comunicaA�A?o.

CF: Qual foi o ponto da sua carreira em que vocA? percebeu que tudo iria dar certo?

MS: Quando procurei a redaA�A?o, eu o fiz para desenhar, mas nA?o consegui. Havia vaga para reportagem policial daA�Folha, onde fiquei por cinco anos. Mas nA?o esquecia os desenhos. Fiz amizade com os chefes do jornal e pedia a eles para me fornecerem todo o material de quadrinhos americanos, para estudA?-los. Chegou um tempo em que eu achava que estava com informaA�A?o suficiente para tentar alguma coisa. Fiz a minha sA�rie do Bidu e apresentei ao editor-chefe, que gostou. Virei sA? desenhista e passei a adaptar tudo o que eu estudava A� realidade brasileira.

CF: Quais foram os artistas que inspiraram sua carreira?

MS: Foram muitos. Will Eisner foi meu -mestre na arte de ousar fazer quadrinhos sem a preocupaA�A?o de respeitar uma lA?gica de criar sempre a mesma coisa. O personagem dele A� sempre bem construA�do, mas as histA?rias viravam-no de cabeA�a para baixo. Havia histA?rias em que o personagem principal nA?o aparecia. Eu recortava histA?rias do Eisner, era fanA?tico. Depois tem outros: o Ferdinando (personagem criado por Al Capp-), que fazia uma sA?tira bem mordaz da sociedade americana por meio de um caipira, uma espA�cie de Chico Bento adulto. Outro era o quadrinista TererA�, que fazia a caricatura do PrA�ncipe Valente. Havia tambA�m o Brucutu (do americano Vincent T. Hamlin), que me inspirou a criar o Piteco. Havia bom material grA?fico na dA�cada de 1940 na Disney, embora esta fosse um pouco cor de rosa demais. E, posteriormente, houveA�Calvin e Haroldo (do americano Bill Waterson), que A� a histA?ria em quadrinhos mais avanA�ada do mundo. A� a que eu gostaria de ter feito.

CF: Por quA??

MS: Sim, porque A� moderno demais. Eu queria ter essa ideia, mas criaram antes (risos).

CF: Hoje temos o mangA? dominando o mercado. HA? quem o critique pela estA�tica, mas hA? quem diga que A� impossA�vel ignorA?-lo. Qual sua opiniA?o a respeito?

MS: Quando alguma manifestaA�A?o artA�stica faz sucesso A� porque hA? um nicho. A histA?ria em quadrinhos americana a partir dos anos 1970 comeA�ou a repetir fA?rmulas. Os mangA?s aproveitaram-se disso. Nosso desenho no Brasil A� do lado americano. O mangA? veio para estabelecer algumas formas grA?ficas que vA?o permanecer e se incorporar A� histA?ria dos quadrinhos. Fizemos aA�MA?nica Jovem, que incorpora os dois estilos.

CF: Podemos dizer que a histA?ria em quadrinhos americana estA? em decadA?ncia?

MS: Agora estA?o em processo de rejuvenescimento. Curiosamente, isso estA? nascendo de quadrinistas brasileiros, alguns deles estA?o entre os melhores do mundo. Mike Deodato, da ParaA�ba, que faz super-herA?is, A� um deles. O que estA? havendo A� uma mestiA�agem entre os estilos japonA?s e o americano.

CF: HA? uma mudanA�a de status nas HQs, com vA?rias ediA�A�es de clA?ssicos da literatura nessa versA?oa��

MS: Exatamente no Brasil vemos uma mudanA�a de patamar. Se antes vocA? sA? as encontrava nas bancas, hoje as vA? nas livrarias em versA�es de grandes obras da literatura.

CF: As HQs tambA�m podem ser usadas em sala de aula porque tA?m uma linguagem que junta texto e imagem. Como o senhor enxerga o uso delas nesse ambiente?

MS: Vejo pelo material que dezenas de editoras que nos solicitam, dentro e fora do Brasil, trechos de historinhas para publicar em livros didA?ticos. Em 2010, estivemos em 480 livros didA?ticos. Fora o nosso projeto que utiliza aA�Turma da MA?nica na prA�-alfabetizaA�A?o chinesa, que deve atingir 180 milhA�es de estudantes. E com uma particularidade: sA?o muito utilizados via web, uma vez que o governo chinA?s nA?o quer usar papel com tanta gente. SA?o HQs, pequenos filmes, desenhos, um material completo que estamos comeA�ando- a utilizar tambA�m aqui no PaA�s.

CF: O senhor voltou a investir em novas mA�dias?

MS: Sim, acabei de criar a Mauricio de Sousa- a��ProduA�A�es Digitais.Trabalhamos em desenhos animados em 3D. ComeA�a com oA�Penadinho,A�HorA?cio e, em seguida, com aA�Turma da MA?nica Jovem em 3D no sistema que foi usado no filmeA�Avatar. Vai ser para a televisA?o e, posteriormente poderA? ir para o cinema. E o importante disso A� que pensamos em ter a educaA�A?o como nosso maior cliente, abrindo caminho para o consumo de livros e de cultura. Tudo o que tiver nosso nome passarA? por educaA�A?o daqui para a frente.

CF: A Turma da MA?nica Jovem estA? discutindo- inclusive sexualidade na adolescA?ncia. Houve quem o criticasse alegando apelaA�A?o. Como entendeu as crA�ticas?

MS: Bem, eu tenho dez filhos espalhados por quase 50 anos. Aprendi a conviver, dialogar, enfrentar e ajudar a solucionar os problemas em cada uma das adolescA?ncias que passaram por meus olhos e meu coraA�A?o. Nenhum pai pode ignorar os momentos de dA?vida no nascimento da sexualidade dos filhos. O que temos de fazer nA?o A� suavizar, mas achar a forma certa de falar sobre o assunto. Hoje uma crianA�a de cinco anos pode fazer perguntas cabeludas que tA?m que ter uma resposta. EntA?o procurei responder A�s crA�ticas dizendo que estamos fazendo uma coisa sA�ria com muito conhecimento de causa. Quando coordeno minha equipe, realmente acho que minha vivA?ncia e de minha equipe ajudam muito, inclusive de forma educacional, atA� para adultos que tA?m dA?vidas.

CF: E o mesmo vale para o personagem Caio, de Tina, que tudo indica ser um personagem homossexuala��

MS: AA� houve exagero. NinguA�m falou nada que havia um personagem homossexual na histA?ria. Foi uma interpretaA�A?o dos leitores ao mesmo tempo que foi uma tateada para ouvir reaA�A�es. E o pA?blico reagiu muito mal, violentamente. NA?o podemos ainda tratar de alguns assuntos da maneira como gostarA�amos. Para evitar problemas, porque temos contratos e nA?o podemos enfrentar uma parte do pA?blico, mesmo que minoria, eu digo que nA?o podemos levantar bandeiras em nossos produtos editoriais. Mas se estA? passando uma bandeira em nossa sociedade, daA� vamos. Cada coisa a seu tempo. De vez em quando testamos alguma coisa.

CF: AA� homossexualidade serA? tocada?

MS: Eu diria que o futuro a Deus pertence. Vamos ver como a sociedade caminha e vamos desenhar a sociedade com humor, leveza, entretenimento e educaA�A?o. Houve transformaA�A�es no passado. Se hA? 30 anos falA?ssemos em divA?rcio, iriam queimar a revista em praA�a pA?blica. Hoje, o Xaveco A� filho de pais divorciados. Houve meia dA?zia de reclamaA�A�es suaves e ele estA? lA? estabelecido, com pais bem resolvidos.

CF: Agora Cebolinha e MA?nica estA?o namorando. EntA?o pararam de brigar?

MS: NA?o, agora que estA?o brigando mesmo! A ediA�A?o 34 daA�MA?nica Jovem tem meio milhA?o de exemplares de tiragem. O povo sempre pede mais, entA?o agora estA? aA�, estA?o namorando. Mas vai parar por aA�, porque a MA?nica A� minha filha (risos). Vai seguir, claro, o que acontece naturalmente com os jovens, mas vai demorar um pouquinho.

Fonte: Carta buy kamagra eu. Capital – Carta Fundamental

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