A cidadania mais presente no ensino

5 de junho de 2013

A violA?ncia no ambiente escolar e as atitudes, muitas vezes agressivas, de muitos jovens no cotidiano tA?m preocupado pais e educadores em todo o paA�s. Uma das saA�das para combater este tipo de comportamento, segundo especialistas, A� trabalhar conceitos relacionados A� cidadania junto a estudantes das mais diferentes idades. Isto, inclusive, motivou a criaA�A?o de um projeto de lei, que tramita no Congresso Nacional, que estabelece a inclusA?o de conteA?dos relacionados A� cidadania no currA�culo das escolas.

Mas, como trabalhar este tipo de assunto junto aos estudantes? Autor do Almanaque da Cidadania (Ed Paulus), o escritor, ator e jornalista JoA?o Pedro Roriz defende que a abordagem seja interdisciplinar, priorizando atividades mais dinA?micas, como apresentaA�A?o de peA�as teatrais e realizaA�A?o de debates entre os alunos. a�?O objetivo dessa matA�ria A� orientar, de modo que os alunos se respeitem dentro do ambiente escolar e reflitam sobre as prA?prias condutas no dia-a-diaa�?, comentou o escritor.

JoA?o Pedro, que tambA�m A� arte-educador especializado em literatura infanto-juvenil, possui dez livros direcionados para essa faixa etA?ria. Foi professor e assessor de Cultura da Universidade Castelo Branco, alA�m de professor de produA�A?o textual e coordenador de eventos literA?rios do Centro Cultural Oduvaldo Viana Filho, vinculado A� Prefeitura do Rio. Ele tambA�m realiza palestras para alunos e professores, sobre temas como motivaA�A?o pedagA?gica, bullying e leitura. Pelo que tem percebido, ele acredita que as escolas, de maneira geral, nA?o estA?o trabalhando da forma mais adequada a questA?o da cidadania junto a seus estudantes.

a�?Existe um a�?bater de cabeA�asa�� da coordenaA�A?o pedagA?gica em relaA�A?o ao comportamento dos alunos. De um lado estA?o as crianA�as e os adolescentes vivenciando seus primeiros anos de relacionamento social e, do outro lado, um nA?mero cada vez maior de professores sem vocaA�A?o pedagA?gicaa�?, destacou JoA?o Pedro Roriz.

FOLHA DIRIGIDA a�� O Senado aprovou um projeto de lei que pode tornar obrigatA?rio o estudo de cidadania nas escolas. Qual a sua opiniA?o sobre esta proposta?

JoA?o Pedro Roriz a�� Acho fundamental que o aluno seja avaliado por seu comportamento dentro da escola e para isso, A� necessA?rio que a escola faA�a seu papel e ensine conceitos sobre cidadania. A forma de apresentaA�A?o dessa matA�ria A� o que gera polA?mica. Temos a oportunidade de, com essa matA�ria, inaugurarmos uma nova forma de educaA�A?o mais moderna e menos repressora, sem a famosa a�?cuspiA�A?o de giza�?, mas com atividades lA?dicas e interativas que cativem o aluno. Prevejo tambA�m uma melhora no comportamento do prA?prio profissional de educaA�A?o, principalmente na educaA�A?o infantil a�� formador da base a�� e nos anos onde o padrA?o de comportamento dos adolescentes A� considerado mais difA�cil (6A? e 7A? anos).

De que forma o senhor acha que a cidadania poderia ser trabalhada nas escolas? Como uma disciplina do currA�culo? Ou de outra forma?

Como matA�ria interdisciplinar do currA�culo, com aulas lA?dicas, com apresentaA�A?o de peA�as teatrais sobre o tema, debates sobre assuntos que estA?o em evidA?ncia nos jornais, palestras dramatizadas e apresentaA�A?o de trabalhos dos prA?prios alunos. Em paralelo, a conduta de comportamento de cada aluno deverA? ser avaliada pelo professor de cada matA�ria e a mA�dia poderA? ser revertida em uma nota simbA?lica dada pelo coordenador pedagA?gico da escola. O objetivo dessa matA�ria A� orientar, de modo que os alunos se respeitem dentro do ambiente escolar e reflitam sobre as prA?prias condutas no dia-a-dia, seja em sala de aula, nas ruas ou durante atividades recreativas e esportivas.

A seu ver, as escolas trabalham, de forma satisfatA?ria, a questA?o da cidadania em seus currA�culos?

NA?o posso generalizar, mas pela minha experiA?ncia, eu diria que nA?o. Existe um a�?bater de cabeA�asa�? da coordenaA�A?o pedagA?gica em relaA�A?o ao comportamento dos alunos. De um lado estA?o as crianA�as e os adolescentes vivenciando seus primeiros anos de relacionamento social e, do outro lado, um nA?mero cada vez maior de professores sem vocaA�A?o pedagA?gica. Enquanto o mundo girar, observaremos que mesmo apA?s anos de evoluA�A?o tecnolA?gica e um louvA?vel desenvolvimento da ciA?ncia na A?ltima dA�cada, ainda nos confrontamos com o grande desafio de convivermos pacificamente. Paradoxalmente, esse A� o ponto em que menos investimos, tanto nas escolas, quanto nos desportos, na polA�tica ou no ambiente de trabalho.

Seu livro a�?Almanaque da Cidadaniaa�? A� voltado para adolescentes. Trabalhar conceitos relacionados A� cidadania na adolescA?ncia pode trazer maior conscientizaA�A?o? Por quA??

Sim. Existe uma incrA�vel troca de papA�is na sociedade quando o assunto A� cidadania. As crianA�as estA?o sempre alertando os adultos de suas obrigaA�A�es: colocar o cinto de seguranA�a, nA?o sujar as ruas, etc. Isso prova que as crianA�as estA?o mais atentas a esses assuntos graA�as ao trabalho de bons professores. Mas ao se tornar adolescentes e experimentar os primeiros momentos de liberdade, muitos esquecem que A� bonito e agradA?vel ser bom e A�tico. Muitos confundem a liberdade de expressA?o e atA� mesmo a rebeldia tA�pica da adolescA?ncia com um comportamento histA�rico, criminoso ou imoral. A� aA� que eu trabalho, sem broncas e ranger de dentes, mas com muito humor e certa dose de rock na�� roll.

O senhor acredita que nossos estudantes tenham o conceito correto do que A� cidadania? Por quA?? amoxicillin trihydrate.

Claro que nA?o. Porque ninguA�m tem. Precisamos ser honestos com os alunos. Existe uma ConstituiA�A?o que informa os direitos e os deveres do cidadA?o. A� preciso sim, ensinar quais sA?o, mas deixando claro que, infelizmente, nem todos terA?o acesso a esses direitos e, por conseguinte, nA?o saberA?o ou poderA?o cumprir com seus deveres. A� importante, a meu ver, que os alunos recebam subsA�dios intelectuais que os permitam observar essas diferenA�as dentro de suas comunidades, de modo a tirar suas conclusA�es e discutir com o professor em sala de aula. Nesse interim, A� preciso que o professor seja sensA�vel o bastante e tenha estrutura emocional para ouvir as mazelas e dificuldades de seus alunos. Isso atA� acontece nas escolas, mas nA?o de modo sistemA?tico.

A presenA�a da cidadania no currA�culo escolar contribuiria para reduA�A?o de problemas que afligem pais e educadores atualmente, como o bullying e a questA?o da violA?ncia?

A� a A?nica ferramenta que temos. Esse trabalho A� realizado pontualmente por algumas instituiA�A�es, mas nem todas estA?o abertas a criar um projeto de combate sistemA?tico A� violA?ncia. Eu realizo palestras dramatizadas sobre bullying em todo o paA�s e essas atividades visam A� prevenA�A?o da violA?ncia nas escolas e ao alerta em relaA�A?o A�s suas consequA?ncias. O meu trabalho A� lA?dico, possui humor, mas poderia ser resumido em uma sA? palavra: a�?cidadaniaa�?. Falarei de assuntos que todos jA? conhecem, mas que ficaram esquecidos por causa de algumas ambiA�A�es tA�picas dos adolescentes a�� como maior aceitaA�A?o, concorrA?ncias, autoafirmaA�A?o, visibilidade, etc. E o trabalho que realizo sA? dA? certo porque a grande maioria dos alunos A� formada por pessoas de bem que, intimamente, querem viver em paz com seu prA?ximo e com sua prA?pria consciA?ncia.

A cidadania envolve, sobretudo, direitos e deveres. E vivemos em uma A�poca em que nossa juventude parece cada vez mais sem limites. Acha que nossos estudantes estA?o preparados para saber que, alA�m de direitos, tambA�m tA?m obrigaA�A�es com a escola, a famA�lia, o prA?ximo, a sociedade, etc?

Sim, mas se o aluno sentir que na prA?tica A� alijado de seus direitos mais bA?sicos (educaA�A?o de qualidade, saneamento bA?sico, moradia, trabalho, etc) nA?o podemos esperar que ele seja Francisco de Assis na hora de cumprir com os seus deveres. A� por isso que eu digo: nA?o dA? para falar de cidadania nas escolas sem passar um recibo de incompetA?ncia governamental histA?rica. Talvez os senadores nA?o tenham pensado nisso antes de propor essa Lei, porque na prA?tica, o que querem A� organizar a a�?plebea�? de acordo com seus interesses. a�?Cidadaniaa�? nA?o significa transformar a sociedade em um grupo de robA?s bem educados na fila dos bancos. Cidadania A� acima de tudo baseada no exemplo. A� preciso agir com honestidade com a populaA�A?o, de modo que as pessoas percebam que nA?o existe prejuA�zo no cumprimento de seus deveres.

Hoje em dia, hA? uma preocupaA�A?o cada vez maior das escolas em preparar os alunos para o Enem. Neste contexto, acredita que, mesmo com uma lei, a cidadania teria espaA�o nas escolas? AlA�m da lei, o que mais A� necessA?rio?

Se um assunto tA?o bA?sico como cidadania nA?o tiver espaA�o nas escolas, principalmente as pA?blicas, nA?o saberei explicar a importA?ncia das outras matA�rias. Pretende-se formar um cidadA?o com conhecimento para o mercado de trabalho, mas nA?o para a vida social. O que adiantaria formar um Brasil de intelectuais individualistas que nA?o possuem o menor senso de coletividade? O Brasil investe na educaA�A?o do povo porque teoricamente esse investimento retornarA?, no futuro, aos cofres da NaA�A?o. Sem o senso de cidadania nas escolas, continuaremos longe do ideal de repA?blica e perto da realidade cleptocrA?tica em que nos encontramos. Essa Lei A� um passo para esse objetivo, mas A� fundamental que alunos e professores entendam seus papA�is e a importA?ncia de seu trabalho para a NaA�A?o, ou os jovens continuarA?o a se perguntar por que sA?o obrigados a ir A� escola.

O senhor acredita que a questA?o da cidadania deveria estar presente tambA�m nos cursos de ensino superior? Como esta questA?o poderia ser trabalhada junto aos universitA?rios?

Sim, acredito. Quando a universidade nA?o contempla apenas o aprendizado tecnicista, promove alargamento intelectual. Mas as matA�rias teA?ricas de ciA?ncias sociais sA?o menosprezadas por muitos alunos. SA?o os efeitos de uma cultura superficial e de uma educaA�A?o deficitA?ria em casa e nas escolas. Basta ver que muitos alunos, ao chegar A�s universidades, passam mais tempo nos bares bebendo do que estudando. A maioria nA?o deseja de fato estudar, mas a�?tirar o diplomaa�? para poder a�?ganhar a vidaa�?. As universidades precisam dialogar mais com os alunos sobre a importA?ncia das matA�rias teA?ricas. Mas, assim como nas escolas, o que vemos nas universidades A� professor a�?cuspindo giza�? e aluno decorando conceitos para passar nas provas.

Muitos afirmam que o jovem, hoje, A� individualista. Um trabalho mais permanente com questA�es relacionadas A� cidadania, ao longo da vida escolar e acadA?mica, ajudaria a desenvolver uma preocupaA�A?o de cunho social? Por quA??

Certamente. Sob a A?tica antropolA?gica A� compreensA�vel que um cidadA?o tenha um pensamento mais individualizado na fase da juventude por conta do processo de criaA�A?o de uma estrutura intelectual e material que servirA? de base para a sustentaA�A?o de seus propA?sitos e objetivos futuros. Mas isso precisa ser relativizado, pois sabemos que nA?o hA? formas desse jovem conquistar todos os seus objetivos sozinho. Por isso, a escola e a famA�lia sA?o cA�lulas tA?o importantes, pois permitem que cidadA?o treine as suas relaA�A�es sociais.

Como o senhor definiria uma escola cidadA??

Como uma forma de redundA?ncia. Uma escola sA? pode ser cidadA?. Caso contrA?rio, perderA? um de seus focos principais que A� o enriquecimento moral de seus alunos e se tornarA? apenas um comA�rcio com propA?sitos mesquinhos.

Publicado pela Folha Dirigida

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